terça-feira, 17 de junho de 2008

Sono animal

Abri a porta para que o Puff pudesse dormir pra dentro de casa. Faz frio pra cachorro, lá fora. Frio é coisa que eu não sou. Mas tenho fome.

É bonito ver o Puff no seu sono profundo, no tapetinho da cozinha, saber que está profundamente agradecido por eu deixar ele entrar na cozinha. O chão da cozinha é frio pra mim, mas é quentinho pra ele. Sono profundo até a hora que eu acendo a luz e abro a geladeira como um monstro esfomeado. Tenho fome, mas não tenho comida aqui no meu quarto. Já o acordei duas vezes nessa minha invasão do refúgio que eu mesmo criei. A cara dele, com os pêlos amassados de um lado, olhando pra mim com aquele olho, me dá dó, e raiva de mim mesmo.

Raiva de ter esses costumes humanos vergonhosos. Ter que ficar botando comida na geladeira e optar por ficar acordado na noite. De ter que colocar o pãozinho no forno, pra que derreta a manteiga. Ter que ficar abrindo portas que nem ao menos precisavam estar ali, a não ser pra fazer mais barulho e acordar com mais efeito o pobre animal que nada mais faz além de dormir no escuro.

Tenho que dormir logo, antes que me bata outro ataque de fome.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O problema de um homem comum

Justo nos seus quatorze anos. Nos quatorze! Deus não era seu amigo, mesmo. O doutor olhando pr'aquelas folhas negras, que tratava de radiografias dorsais, torceu o queixo pra se dirigir à mãe daquelas manchas translúcidas, no papel preto, quais passavam uma luz branco-cru:
- Bom, a única solução seria que o garotão usasse um colete ortopédico como esse daqui. Mostrando uma foto aterrorizante de um exemplar, o qual fez mãe e filho estimularem tremendamente a imaginação pra entenderem como aquilo pudesse se encaixar num homem comum.
- Meu Deus! A mãe abre a boca.
- Essa é última reação que uma mãe deve ter em frente ao filho. Advertiu o Doutor.

O fim da consulta foi um grande espetáculo de descaso, nem ao menos um retorno marcado.
A cara de espanto da mãe corrobora com o fato de que esse “colete ortopédico” fosse o terror dos jovens tortinhos. Partiam da cintura, uns ferros grotescos que subiam até o pescoço, cujo contornado por um injusto anel de ferro: Uma grandiosa submissão do homem orgânico para com aquelas estruturas maquinadas que reprimiam o seu subordinado de alguns movimentos essenciais e satisfatórios.

“Não! Afinal, o que são umas dorezinhas das costas?”, o rapaz não ia se sujeitar àquela situação humilhante. O que seriam de suas paixões a serem conquistadas? Seria visto com olhos de piedade, conseqüência de hesitações a dirigir-lhe piadas, hesitações por receio de magoar-lhe. Degradante. Foi um “bem-vindo” à eterna companheira, a dor.

Dor que não havia igual. E não adiantava reza braba, medicina alternativa e o que fosse. Passou então a descarregar toda a fúria e moléstia da vida culpando a tal parasita, isso o amortecia e fazia viver. Era a dor que o fazia perder tempo e desprender a atenção nos testes da escola, concursos, leituras, produções: na vida. Ela o fazia ficar se alongando e se contorcendo, erguendo os braços e rebolando o lombo com um propósito eterno, subconsciente, de cessar a maldita dor.

Teu corpo parecia um grande anzol humano tendo a omoplata como fisga. Mas tudo bem, “eu sempre odiei aqueles caras eretos e nojentos, com pose de pilar greco-romano” era satisfeito com a fachada, ao menos. Tua maldição não era por completa exagerada.

Mesmo assim, cansa de lutar, sempre, contra seu maior inimigo, e desiste, sempre, a curto prazo. Cada vez mais devastado, cansado e desafortunado. Eis aí um homem confinado a carregar um fardo de desgraça pro leito.
Talvez encontre uma esposa fisioterapeuta-massagista pomposa e gostosa, não que isso adiantasse, mas seria um conforto a troco dessa grande tristeza orgânica.