Justo nos seus quatorze anos. Nos quatorze! Deus não era seu amigo, mesmo. O doutor olhando pr'aquelas folhas negras, que tratava de radiografias dorsais, torceu o queixo pra se dirigir à mãe daquelas manchas translúcidas, no papel preto, quais passavam uma luz branco-cru:
- Bom, a única solução seria que o garotão usasse um colete ortopédico como esse daqui. Mostrando uma foto aterrorizante de um exemplar, o qual fez mãe e filho estimularem tremendamente a imaginação pra entenderem como aquilo pudesse se encaixar num homem comum.
- Meu Deus! A mãe abre a boca.
- Essa é última reação que uma mãe deve ter em frente ao filho. Advertiu o Doutor.
O fim da consulta foi um grande espetáculo de descaso, nem ao menos um retorno marcado.
A cara de espanto da mãe corrobora com o fato de que esse “colete ortopédico” fosse o terror dos jovens tortinhos. Partiam da cintura, uns ferros grotescos que subiam até o pescoço, cujo contornado por um injusto anel de ferro: Uma grandiosa submissão do homem orgânico para com aquelas estruturas maquinadas que reprimiam o seu subordinado de alguns movimentos essenciais e satisfatórios.
“Não! Afinal, o que são umas dorezinhas das costas?”, o rapaz não ia se sujeitar àquela situação humilhante. O que seriam de suas paixões a serem conquistadas? Seria visto com olhos de piedade, conseqüência de hesitações a dirigir-lhe piadas, hesitações por receio de magoar-lhe. Degradante. Foi um “bem-vindo” à eterna companheira, a dor.
Dor que não havia igual. E não adiantava reza braba, medicina alternativa e o que fosse. Passou então a descarregar toda a fúria e moléstia da vida culpando a tal parasita, isso o amortecia e fazia viver. Era a dor que o fazia perder tempo e desprender a atenção nos testes da escola, concursos, leituras, produções: na vida. Ela o fazia ficar se alongando e se contorcendo, erguendo os braços e rebolando o lombo com um propósito eterno, subconsciente, de cessar a maldita dor.
Teu corpo parecia um grande anzol humano tendo a omoplata como fisga. Mas tudo bem, “eu sempre odiei aqueles caras eretos e nojentos, com pose de pilar greco-romano” era satisfeito com a fachada, ao menos. Tua maldição não era por completa exagerada.
Mesmo assim, cansa de lutar, sempre, contra seu maior inimigo, e desiste, sempre, a curto prazo. Cada vez mais devastado, cansado e desafortunado. Eis aí um homem confinado a carregar um fardo de desgraça pro leito. Talvez encontre uma esposa fisioterapeuta-massagista pomposa e gostosa, não que isso adiantasse, mas seria um conforto a troco dessa grande tristeza orgânica.