segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O Refúgio

E perdura a quente estiagem na cidadezinha, por mais um ano, sete meses e doze dias. Alguns meses mais e vão estar, pela manhã, lavando o rosto numa folha de jornal, ao invés da toalha umedecida que ficava embaixo do sujeito enquanto dormia.
A sede é saciada pelas mangas ainda verdes e murchas que, poucas, vingaram no pé. Ah, mas a guerra, a guerra, sim, por essas deliciosas frutas poucas, não é das fracas. Os moleques mais esguios e experientes que ficavam nos galhos mais altos, não hesitavam em distribuir uns pontapés nos que vinham logo de baixo. E as velhinhas, daquelas que já ganhara pelo tempo uns centímetros a menos e cultivavam a corcunda que as impedia à escalada, levavam cestas de pedras e voltavam com uma ou duas mangas e nenhum troço de remorso por ter acertado em cheio na cabeça dos jovens, que no alto tentavam se protegerem.

Um rio enorme a vinte quilômetros da cidade ficava. Enorme não só, mas uns dos mais largos de todo o Brasil. O rio, um enorme chamariz, era infestado de cachorros, gatos, ratos, pássaros de todas as sortes: um enorme safári. Na cidade, lá próxima, caravanas de donas de casa se organizavam, carregando três bacias cada uma e iam cambaleando aos solavancos por entre as enormes rachaduras da estrada. Quando chegavam com um restinho de fôlego e os lábios abrindo, se jogavam à margem e desistiam de levar de volta as bacias, largavam-nas lá mesmo, ou até não voltavam para a cidade nunca mais – eram então deserdadas – e também seria eu, caro leitor, pois aquela sociedade a beira rio era um grande paraíso. Algumas morriam de tanto beber água e boiavam no rio, levadas pela correnteza.

“O que acha, vai chover hoje?” nunca mais se ouviu. Fora consentido que Deus fizera uma enorme barreira para as nuvens e estavam confinados àquela vida seca e miserável.Não que não fossem felizes, claro.

Um comentário:

Unknown disse...

mas que insônia, hein?

bom ter voltado, se é que se foi!

Anita