É, homem, tome cuidado
Lucindo, sereno devia ser seu sobrenome. Casado com Joana Domingos, mulher das mãos calejadas, e de brabeza e dentes fortes, que rangiam quando alguma joça parecesse estar fora dos trinques. Juntos, um casal de classe média descendente, graças à má vontade do macho. Macho? Dos que fazem jus à classe masculina, que botaria no topo da pirâmide das palavras ofensivas o “mariquinha” e “boiola”. Ele não comia: se empanturrava, não importante com o que, mas que sustentasse seu orgulho de pança, recheada da mais ordinária cerveja.
Queixas era o que mais saia da boca de Joana. Também, ela da laia extremista, a que derrama prantos escondida no banheiro, por uns talheres ainda com pedaços de feijão largados pelo marido. Os prantos eram sempre de almejo e insatisfação, pois já suportava há tempo demais naquela vida carregando a mais pesada máscara de humildade.
Lucindo estava estirado no sofá, com sua serenidade, a barriga farta e olhar diáfano. Sustentava a lugubridade do clima, esperando o dia acabar.
- Ainda tem aquelas balas de caramelo no pote azul? - Sofria para falar, lutando com sua biologia, forçando um empate com o cansaço.
-Já chega dessa palhaçada! – nesse momento, Lucindo abre uma leve vantagem na sua luta – Você não traz comida pra essa casa desde que... Sei lá desde quando! Não vejo você fazer um mínimo esforço sequer, fica aí adorando o próprio umbigo e ainda tem o topete de pedir balinhas de caramelo! Enquanto eu me afogo nessa sujeira, nesse destino lastimoso, trancafiada nesse casebre! Não sabe você o quanto eu trabalho aqui, fazendo a mesma porcaria de serviço por anos ou talvez até décadas! E você que goza de um serviço que diz ser a nossa bênção, de boa índole e o diabo a quatro, não traz uma porcaria de saco de comida pra casa, nem ao menos compartilha dessa minha tristeza. – Embriagada pela torrente incontrolável de desabafo, dando passos largos pra lá e pra cá, dá um chute tremendo na quina da mesa, que faz-la soltar um enorme suspiro e cair uma lágrima comovente. Continua.
- Juro que saio daqui qualquer dia, paro com tudo e vou buscar um trabalho de verdade como esse teu aí. Eu sei, eu sei; você acha que não sou capaz, que é preciso de disso e daquilo, não é? Ah, mas eu juro sim senhor que pulo pra fora desse poço e te deixo aqui, abandonado aqui com essa poeira toda e então vai ser a minha vez de fazer alguma coisa de verdade, aí você vai aprender como é que se ganha dinheiro!
Lucindo, por um coçar de barriga, revela aos leitores que o rebuliço era fato cotidiano. Não obstante de revigorar umas lembranças infantis. Ainda com um giz na mão e o guidão da bicicleta em outra, em frente a um muro branco e largo, vizinho de sua casa. É então que sua mãe sai para o quintal, varrer a calçada e o pega com a mão na massa. Grita “entra já aqui, Lucindo Gonzaga!”, ele leva um susto enorme, e num pulo dos grandes, monta com firmeza na bicicleta. Porém, sabe que se sair pedalando em sentido oposto, uma hora ou outra ia ter que voltar para a sua casa e ainda assim levar o sabão de sua mãe, senão pior. Portanto, rende-se. “Você vai agora com esse balde d’água limpar aquela porquice no muro do pobre Alírio!” Lucindo, ‘inda traquinas, sacode a cabeça de mostra o bico. “Ah, então é assim? Espera só seu pai chegar do serviço pra eu contar tudo a ele!”
- E não levanta os olhos de descaso enquanto falo contigo!
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