quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Amarelinhas

Odeio-te, folha pequena!
Odeio-te, por eu ter de corrigir suas ilusões sobre as extensões da minha escrita e ainda assim receber a incomensurável insatisfação ao reescrever na folha razoável.

É, homem, tome cuidado

Lucindo, sereno devia ser seu sobrenome. Casado com Joana Domingos, mulher das mãos calejadas, e de brabeza e dentes fortes, que rangiam quando alguma joça parecesse estar fora dos trinques. Juntos, um casal de classe média descendente, graças à má vontade do macho. Macho? Dos que fazem jus à classe masculina, que botaria no topo da pirâmide das palavras ofensivas o “mariquinha” e “boiola”. Ele não comia: se empanturrava, não importante com o que, mas que sustentasse seu orgulho de pança, recheada da mais ordinária cerveja.

Queixas era o que mais saia da boca de Joana. Também, ela da laia extremista, a que derrama prantos escondida no banheiro, por uns talheres ainda com pedaços de feijão largados pelo marido. Os prantos eram sempre de almejo e insatisfação, pois já suportava há tempo demais naquela vida carregando a mais pesada máscara de humildade.

Lucindo estava estirado no sofá, com sua serenidade, a barriga farta e olhar diáfano. Sustentava a lugubridade do clima, esperando o dia acabar.

- Ainda tem aquelas balas de caramelo no pote azul? - Sofria para falar, lutando com sua biologia, forçando um empate com o cansaço.

-Já chega dessa palhaçada! – nesse momento, Lucindo abre uma leve vantagem na sua luta – Você não traz comida pra essa casa desde que... Sei lá desde quando! Não vejo você fazer um mínimo esforço sequer, fica aí adorando o próprio umbigo e ainda tem o topete de pedir balinhas de caramelo! Enquanto eu me afogo nessa sujeira, nesse destino lastimoso, trancafiada nesse casebre! Não sabe você o quanto eu trabalho aqui, fazendo a mesma porcaria de serviço por anos ou talvez até décadas! E você que goza de um serviço que diz ser a nossa bênção, de boa índole e o diabo a quatro, não traz uma porcaria de saco de comida pra casa, nem ao menos compartilha dessa minha tristeza. – Embriagada pela torrente incontrolável de desabafo, dando passos largos pra lá e pra cá, dá um chute tremendo na quina da mesa, que faz-la soltar um enorme suspiro e cair uma lágrima comovente. Continua.

- Juro que saio daqui qualquer dia, paro com tudo e vou buscar um trabalho de verdade como esse teu aí. Eu sei, eu sei; você acha que não sou capaz, que é preciso de disso e daquilo, não é? Ah, mas eu juro sim senhor que pulo pra fora desse poço e te deixo aqui, abandonado aqui com essa poeira toda e então vai ser a minha vez de fazer alguma coisa de verdade, aí você vai aprender como é que se ganha dinheiro!

Lucindo, por um coçar de barriga, revela aos leitores que o rebuliço era fato cotidiano. Não obstante de revigorar umas lembranças infantis. Ainda com um giz na mão e o guidão da bicicleta em outra, em frente a um muro branco e largo, vizinho de sua casa. É então que sua mãe sai para o quintal, varrer a calçada e o pega com a mão na massa. Grita “entra já aqui, Lucindo Gonzaga!”, ele leva um susto enorme, e num pulo dos grandes, monta com firmeza na bicicleta. Porém, sabe que se sair pedalando em sentido oposto, uma hora ou outra ia ter que voltar para a sua casa e ainda assim levar o sabão de sua mãe, senão pior. Portanto, rende-se. “Você vai agora com esse balde d’água limpar aquela porquice no muro do pobre Alírio!” Lucindo, ‘inda traquinas, sacode a cabeça de mostra o bico. “Ah, então é assim? Espera só seu pai chegar do serviço pra eu contar tudo a ele!”

- E não levanta os olhos de descaso enquanto falo contigo!

Fobia de Alegria Alheia

Desculpem o chavão, mas venho acumulando rancor contra a gargalhada. Ela vem se desmentindo cada dia mais e revelando sua perversidade. Não consegui encontrar uma só situação em que me trouxesse um bocadinho de nada de alegria ao ver uma outra pessoa gargalhando. Ao contrário: cada dia mais esse câncer vem me irritando e provando por si só o qual nociva é essa gargalhada. Egoísta e burra, não passando de chacota, gozação, zombaria.
Avisem-me ao visar uma criança gargalhando a ponto de mijar nas calças após ganhar um docinho. Aposto que seria a coisa mais sinistra em disparada. Uma boa cena p’rum filme de terror de primeira categoria.Venho cultivando essa fobia e aprendendo cada vez menos a conviver com esse mal. Portanto, não venha com suas gargalhadas ofensivas pra cima de mim, que como diria um amigo “juro que te dou um soco!”.

Pra Falar Sobre Política

Não sou dos que fica vendo pêlo em ovos. Fora de mim as teorias conspiratórias quais culpam a pobrezinha da política por qualquer probleminha social corriqueiro a troco de ideologias individualistas e o escambau.
Há os que acham que o nosso presidente Lula fora eleito por culpa de uma grande massa burra, despolitizada e inferior. Há também o grupo, qual eu me perfilo, que simplesmente acha que foi, ele, eleito por uma maior porção de pessoas – lógico –, que resolveu escolhê-lo por atender melhor a seus interesses.
A política é uma ciência simples e boba, não há causa pra perder tempo com discussõezinhas filósofo-filantópo-sociais.