sábado, 23 de junho de 2007

Cortesia ao Farmacêutico

Nosso avô era homem mocinho, positivo – menino, sim. Não causava descontentamento com quem quer que fosse, o melhor homem da terra. Um tormento que dessa terra não difundisse seu reconhecimento. Podia ser príncipe, pai, filho, podia ser Deus, podia ser fazendeiro, que de fato era. Fazendeiro? Quer dizer, farmacêutico. Certo qualquer disse um dia, que o homem é aquilo que faz. Digo que com ele, meu avô, não era assim. Chamava-se Décio. Décio pra mim, seo Décio, ouvia-se.

Como uma criança atuando num filme de gente grande, do que eu mesmo me alembro, ia eu, sempre pedir chicletes em sua farmácia, até que quando era interrompido nos risos por uns de seus clientes. É aí que metamorfoseava-se num farmacêutico e tanto. Tanto sério, tanto eficiente. Atuava como ninguém, era ator do corriqueiro. Nessas suas performances incríveis – como um filho acena pra mãe em seu teatro escolar -, ele me soltava uma ou outra piscadela, com cautela, para que não fosse evidente. Era mágico, acompanhando pelo chiclete do pote.

O que ele realmente sempre esperava, era o fim dos dias de trabalho semanais, dormia pensando no fim de semana, ansiava pelo dia seguinte. Não pense que desgostava desse seu papel não, era tudo muito bem apreciado, ah, com o sorriso e os olhos brilhantes. É, da arte que inventava o outro sorrir, refeito ingênuo.

A espera era merecida, como um mergulho fundo num rio claro e brando, viajava s’embora pro seu sítio, daí fazendeiro. O “Recreio do Papai”, todo fim de semana era visitado por seo Décio.
Interpretava com gosto invejável o fazendeiro, em rigoroso traje, ainda que ordinária roupa de brim, sem polainas, esporas, quiçá nem botas. Tinha os dedos tímidos postos pra fora da sandália, sandália improvisada de um velho sapato cortado as pontas.

O recreio era do “papai”, mas quem o aprontava, era a “mamãe”.

Mesa sempre posta com os eternamente quentes pães caseiros. E a garrafa de café, cafezinho aquele que brotava daquela mesma terra. Em memórias mais apagadas, lembro-me da vovó torrando o café ali mesmo, do lado de fora do rancho e alastrava como encanto, o aroma para cantos e recantos. Árdua tarefa de nossa avó, tratar do tal recreio, jeito dela, cuidadosa e singela.

A vitrola riscava uns discos de música caipira e uns boleros. Enquanto nosso avô ausentava-se para sua terapia. Devia ele não encarar como uma terapia, mas como tarefa, que exigia esforço e sacrifício! Nem matos rasteiros, tufos de moitas, troncos largos e arbustos restavam. Seo Décio logo os atirava fogo. Tolo é aquele que não aprecia a beleza do fogo. Sábio era ele, que abria um sorriso e chamava-me pra ver a chama se alastrando e erguendo um mundaréu de fumaça. Lindo!

Jamais ressentia-se, de sede, fome, frio, calor, nem do desconforto costumeiro ele tirava queixa. Seu cabelo branco não dizia nada.

Uma coisa ruim, muito ruim, o pegara e como de costume não se queixou.

No leito do hospital, repousou. Num dia, minha visita parecia pertinente. Estava deitado na cama como se fosse necessário. Com brilho nos olhos e no sorriso que me presenteava quando na beira da cama. Esperava que fosse mais uma atuação bem elaborada, logo chegaria o fim de semana e ele ia s’embora pro sítio. Enganei-me dessa vez.

Eis o dia que morreu. Espalhou-se então, a morte, espanto, terror e pavor. “homem desses não há de morrer!”, não fora visto fora essa vez, não por mim, em um lugar tão triste, numa situação tão horripilante. O choro de minha avó me deixava mais preocupado ainda.

Construiu uma família, a maior que conheço graças à herança toda de seo Décio. Herança de vivência com homem bravo. Houve tal homem – um dia, na terra – nosso avô.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Alda: Menina Invisível

Num dia tão belo e oportuno
invisivel pediu pra ficar,
pra que pudesse peças pregar,
doces roubar e sem medo, transar.
"Eu te afortuno!"
E invisivel passou a se levar

Tudo bem ocorreu até então,
Alda riu, Alda se divertiu;
Alda riu e sentiu tesão.
Mas dum tempão assim passou
e Alda não podia mais voltar.

Visível mais, não podia se tornar.
Tentou e tentou se adaptar,
mas como claro é o destino,
Alda morreu.
De desgosto e solidão.


Para Alda.
Ela acredita fielmente, quando passa por uns momentos específicos, que está, sim, invisível como ar. Espero que não morra, menina, cê é das boas. Louquinha, mas das boas.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

As carolinas

Não, Sofia, não vou escrever sobre as carolinas.

Mais um conto infante

Suas investidas amorosas nunca foram assim, das melhores. Era um homem então que passava tardiamente pela pré-adolescência. Não mais tarde, Nilton tropeçou em um belo par de coxas. A moça, e sua beleza magistral conquistaram, então, o garoto. Acreditem, era uma belezura de mulher. Apaixonado, daí, passou a conviver com seu amor. Brincaram de banco imobiliário, andaram de pônei, tomaram sorvete.

Não suportava mais sua mãe dizendo que devia voltar para a casa, dormir em sua cama. “sou sua mãe afinal, eu estou exigindo isso!” – ela podia exigir isso, afinal, era sua mãe! Disse com as veias saltando da testa. Ele não gostou tim tim por tim tim disso tudo, e num sopetão deu-lhe logo um pontapé no estômago e procurou arrego com sua namoradinha. Ela logo fez-lhe um cafuné, serviu leite quente e uma massagem nos pés.

Estava decidido sobre seu futuro: Aos vinte e dois anos teria filhos e um lindo casamento com Lívia – o par de coxas –longe de sua mãe insuportável e seus insuportáveis deveres rotineiros.

Suas investidas amorosas sempre foram das melhores. Era uma mulher madura, nunca precisara treinar os beijos em um cubo de gelo boiando em uma xícara. Não mais tarde, Lívia tropeçou em um belo par de coxas, um homenzarrão – Para esclarecimento: Não, não era o Protagonista. Lívia jogou-se aos seus pés e disse-lhe umas palavras românticas. Os dois montaram num pônei e saíram “voando” – não se voa literalmente em pôneis. Fugiram para o Caribe para viverem felizes para sempre.

Nilton, em prantos, correu –segurando a indignação no sovaco –para os braços da mamãe, e então descartou todos aqueles lindos planos de vida e foi viver suas atividades rotineiras com a família.

Nilton morre de derrame – claro, depois de um tempo –e acaba.