segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Feitos de uma pequena corajosa

Estão defronte, um do outro, ela o olha com cobiça, um olhar encarniçado, como o predador olha para a sua presa; anda em sua direção com passos delicados e sedutores, ele permanece na mesma posição, porém seu medo não se esconde em sua posição de folha a cair. Do jeito que seus pés se movem, parecem hipnotizar, tanto a ele quanto a mim – que assisto a investida sentado no sofá do quintal, com curiosidade.


O gafanhoto tinha o dobro de seu tamanho, mas ela, a osga, tinha um ímpeto assustador, enquanto as demais, espalhadas pela parede branca, buscavam as pequenas moscas, que em demasia ficavam ao redor da luz. Ela, em especial, queria dar o bote, estava decidida.


Era aniversário do meu avô, a família toda estava presente. Logo após o farto jantar, todos estavam sentados em suas cadeiras, sem expressão, respirando e bebendo alguma coisa que aliviasse o mal-estar. Distendiam os maxilares e coçavam a barriga.Estava eu, satisfeito, fazendo a digestão e assistindo à incrível cena.


Se aproximava cada vez mais, desgrudava e movia as patas da parede. Não conseguia esconder o meu entusiasmo, minhas pernas quicavam no chão e meus braços contorcidos enquanto roia as unhas.

- O que é que ta fazendo aí? Disse a minha avó invadindo assim com brutalidade a minha distração. Logo eu disfarcei muito bem e conversei com ela, mordendo os lábios de curiosidade. Afinal, eu tinha vergonha, achava ridículo dize-la que estava assistindo a caça de uma lagartixa, merda, é muito menos ridículo que assistir ao jornal!

A cada olhadela que eu dava para traz ela estava mais próxima, e eu mais distante de acompanhar. Não resisti e abandonei a vovó para dar toda atenção àquele réptil pequeno e corajoso.
Ela pára, completamente de se locomover, está então a uma distância suficiente para atacar, meu coração uma hora dessas sai pela boca. Pinicado por perguntas e curiosidades da minha avó, eu continuo a não oferece-la atenção.


Quando, num supetão, a osga ligeira dá uma sangrenta e feroz abocanhada no inseto. Ele cai no chão como cai um homem morto na sacada de um prédio, cruzando e contorcendo suas patas.


A osga? Ficou ali estagnada, como se erguesse o troféu de campeã. Afinal, seria impossível engolir aquele bicho todo. Como não pensei nisso...Ela estava praticando um esporte.

- E como anda a vida lá na faculdade? Continuava a me perguntar.

2 comentários:

Vitor disse...

muito interessante... a descrição é apaixonante e remete a uma cena aconchegante e prazeirosa no ambiente familiar próximo...

da uma olhadinha... me interesei
http://entranhasdamente.blogspot.com/

um abraço.

Guilherme S. disse...

Na faculdade deve existir um punhado de osgas, as quais anseiam por engolir outrem, mas, fatalmente, não tem capacidade para tanto... Num é?