segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O mais novo ex-funcionário

E ainda tenho que suportar toda a avareza tua.

A gente nasce e já ouve mileuns palpites pro próprio destino. Compram-nos uma camiseta dum time de futebol qual nem mesmo discernimos a cor e dizem “esse vai ser corintiano!”. Botam-nos numa escolinha e nos ensinam a ler. Daí, a gente cresce e vira moço. Pagam-nos um cursinho porrada, ou uma faculdade daquelas firmezas.

A gente passa a vida toda estudando, sonhando, pagando e estudando, de qualquer jeito.

Isso, a gente sonha... Sonha trabalhar pra Embraer, General Motors e o escambau. Botar aquele sorrisinho lindo na cara e aquele uniforme estilo ridículo: macacão e quepe.

Então dá tudo certo e temos o tal emprego, ganhando nosso dinheiro de volta, com a razão estampada na testa e o emblema da empresa no peito.
Mas não é o suficiente, afinal somos humanos e nossa vida não pode continuar sem aspirar um destino. É aí que somos calados com uma proposta da mais justa e linda “aqui você pode subir!”, diz nosso superior, “pense na empresa como uma escada”, e nós subimos, estudamos mais e nos esforçamos mais pra poder subir cada vez mais. Subir, pra onde? Para um cargo melhor, um que nos renda mais dinheiro. Simplesmente.

Subimos! Subimos até um ponto que não existem mais degraus. Temos maços de dinheiro para comprar nossas porcarias há tempos almejadas. Notamos, por fim, que mesmo daqui do alto, tem, é claro, uma criatura mais bem afortunada, com mais maços de dinheiro e porcarias bem melhores que as nossas. Esse cara nos faz obedecer-lho. Fazemos. Mas é assim mesmo, é só, depois, dar aquele sorriso e ir para casa. Sofremos, pagamos e estudamos a vida toda para cumprir umas ordens a troco de dinheiro.

Portanto, patrão, não me faça ter de suportar toda essa tua avareza.

Às Amigas

Às minhas mais contemporâneas amigas, escrevo este texto e, também, em homenagem à minha frouxidão, que me coíbe de qualquer desabafo convosco.
O tema é a minha insônia, a qual me incentiva a escrever-lhas. Para explicá-la, terei de cuspir e vomitar umas filosofias para que a ópera não seja criticada ridícula.
Essas tais filosofias não passam de umas análises psicológicas de fundo de quintal, porém que as venho realizando-as ao longo da vida.
Digo-lhes a princípio, amigas, que percebo ao longo desses anos que toda atitude humana pode ser justificada por uma razão egocêntrica, sempre por um simples e mesquinho benefício próprio. Que não me joguem pedras, mas até o ato dito mais puro e inocente é decerto egocêntrico, desde o escolher do tomate na feira até o rapaz que ajuda a velhota a atravessar a rua para se erguer no ânimo de garoto-solidariedade. Pedras? Parece ser um assunto polêmico, mas, custa-me dizer que ainda não me conseguiram provar o contrário.
Venho, ao longo desse mesmo tempo, me desafiando quanto às minhas atitudes, sempre procurando pelas mais desafiadoras. Como dizer à minha mãe “eu te amo” a ignorá-la. Ou então um “é, você tem razão” a persistir em uma teimosa discussão, mesmo certo de meu ponto de vista.
Existe uma dedução de que a amizade entre homens e mulheres não passa de uma máscara para uma relação amorosa, sexual, afetuosa. Venho tentando, então viver o oposto disso, mas me decepciono cada vez mais, ao perceber que não sou capaz de tal valor. A suas amizade só pode beneficiar-me mais a uma amizade masculina, pelo afeto e carinho que têm a me oferecer. E me esclareço, de que não há nada mais de impuro e mesquinho em saber que meu interesse é de me deitar com qualquer uma de vocês e trocarmos ternura, carícias e atenções, sem as quais planto em mim desejos e colho a insônia.

Carta

Desculpa-me, desculpe por ser assim, tão estranho, tão ingrato, indeciso. De querer mudar o mundo, quando o que eu precisava é de um pouco do velho conservadorismo. De estar sendo tão literário – é algum problema em relação à cartas -, de alimentar devaneios, de ter tantos almejos, ser tão mesquinho e tolo. Preocupei-me com você agora, tamanha foi minha grosseria a ponto de desmoronar qualquer tipo de relacionamento ainda aprumado.

Tenho vergonha de ti, e não é da minha nádega branca e chocha, mas desse comportamento arrogante, pretensioso e mesquinho que ando cultivando.

Desculpa-me pela atmosfera de inferioridade que proporciono, não se sinta submissa, já que na verdade sou eu a você. Desculpas por ser tão chato, burro e fingido.

Das vezes que fui correndo embora depois de me satisfazer, não passaram de um ataque eufórico de medo, medo de você. Sou um boboca de bunda aberta pro mundo.
Se acha que não tenho sentimento, desculpa, desculpa por não ter sentimento e ficar só me comportando de acordo com as vantagens da situação. Se posso eu estar apaixonado por duas pessoas simultaneamente, é por não ter sentimentos ou ser fora do comum. É, sou a aberração do mundo contemporâneo, sendo chicoteado por todos os lados justamente.


Se tenta me esquecer, prometo fazer lembrar-se de mim. Tenho de fazer honrar minha estirpe.
Prometo, ao menos, não faltar-lhe com respeito.

Abraços fraternos, aqueles de sempre, nada demais, sabe?

O Refúgio

E perdura a quente estiagem na cidadezinha, por mais um ano, sete meses e doze dias. Alguns meses mais e vão estar, pela manhã, lavando o rosto numa folha de jornal, ao invés da toalha umedecida que ficava embaixo do sujeito enquanto dormia.
A sede é saciada pelas mangas ainda verdes e murchas que, poucas, vingaram no pé. Ah, mas a guerra, a guerra, sim, por essas deliciosas frutas poucas, não é das fracas. Os moleques mais esguios e experientes que ficavam nos galhos mais altos, não hesitavam em distribuir uns pontapés nos que vinham logo de baixo. E as velhinhas, daquelas que já ganhara pelo tempo uns centímetros a menos e cultivavam a corcunda que as impedia à escalada, levavam cestas de pedras e voltavam com uma ou duas mangas e nenhum troço de remorso por ter acertado em cheio na cabeça dos jovens, que no alto tentavam se protegerem.

Um rio enorme a vinte quilômetros da cidade ficava. Enorme não só, mas uns dos mais largos de todo o Brasil. O rio, um enorme chamariz, era infestado de cachorros, gatos, ratos, pássaros de todas as sortes: um enorme safári. Na cidade, lá próxima, caravanas de donas de casa se organizavam, carregando três bacias cada uma e iam cambaleando aos solavancos por entre as enormes rachaduras da estrada. Quando chegavam com um restinho de fôlego e os lábios abrindo, se jogavam à margem e desistiam de levar de volta as bacias, largavam-nas lá mesmo, ou até não voltavam para a cidade nunca mais – eram então deserdadas – e também seria eu, caro leitor, pois aquela sociedade a beira rio era um grande paraíso. Algumas morriam de tanto beber água e boiavam no rio, levadas pela correnteza.

“O que acha, vai chover hoje?” nunca mais se ouviu. Fora consentido que Deus fizera uma enorme barreira para as nuvens e estavam confinados àquela vida seca e miserável.Não que não fossem felizes, claro.